Teus olhos miúdos e mãos pequenas tocaram minha essencia e mudaram meus valores, quando aprendi que uma vez a confiança perdida o trabalho de resgate é árduo.
Te vi, mas enxerguei tuas marcas.
Tentei tocar teu rosto, mas me repeliu de forma explícita como quem fecha o corpo.
Por vezes, pensei que ausencia de afeto se supria apenas com afeto. Não foi o que você me mostrou. Nas nossas idas e vindas as palavras só aumentaram quando diariamente meus olhos tocavam os teus.
Me afligia em ver tua alma de criança adormecida. Teus gestos inertes, teu corpo passivo. Endureci, quando cheguei a crer que o mal que te fizeram tinha te consumido.
Dia após dia , você me mostrou que algumas cercas que criamos para nos defender só sucumbem nas certezas. Você me fez perceber que nem toda criança se alegra com balões coloridos e que a força de uma mão que se entrega, a doçura de um olhar, a intimidade de um abraço são degraus necessários a nossa conquista.
Te vi bebê, te conquistei menina e hoje quando te encontrei mulher percebi as marcas em forma de cicatriz. O medo, uma constante em seus olhos deu lugar a um brilho único. Apesar da tristeza, pude ver luz.
Sua ânsia pelo futuro e a crença de quem quer uma familia para ser feliz me convenceu que construimos juntos o resgate da criança que morta em essencia quase desistiu de viver.
Eu continuo acreditando em você e só hoje depois de tanto tempo, sei que isso fez diferença para você e, com certeza, para mim.

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